Cidades da Região Metropolitana de Curitiba atingidas por tornado não têm plano de adaptação às mudanças climáticas

  • 19/01/2026
(Foto: Reprodução)
Especialistas alertam que eventos extremos serão mais frequentes e mais fortes. São José dos Pinhais e Piraquara, cidades da Região Metropolitana de Curitiba (RMC) que enfrentaram um tornado de nível F2 no começo do ano, não têm um Plano de Adaptação à Mudança do Clima. Um levantamento publicado pela Transparência Internacional classificou a gestão das cidades em relação ao tema como "ruim". Segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), os ventos na região ultrapassaram 180 km/h. O tornado afetou 350 residências e impactou 1,2 mil pessoas, conforme a Defesa Civil Estadual. A ausência de planos municipais foi um dos critérios avaliados no módulo de Adaptação Climática do Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP) de 2025. Das 14 prefeituras da região analisadas, apenas a capital Curitiba recebeu a classificação "bom". Dez cidades tiveram a classificação "ruim". A gestão em Almirante Tamandaré foi considerada "regular", enquanto Balsa Nova e Colombo receberam a classificação "péssimo". ✅ Clique aqui e siga o g1 PR no WhatsApp Carolina Efing, advogada socioambiental e membro da Rede Curitiba Climática (RECC), organização responsável pelo levantamento na RMC, destaca que, com exceção da capital, nenhum dos municípios adere à Lei Federal nº 14.904/2024, que estabelece as diretrizes nacionais para os planos de adaptação às mudanças do clima. De acordo com a especialista, no Brasil "ainda é uma minoria dos municípios que atende esses requisitos básicos em relação à adaptação climática, infelizmente". Tornado de nível F2 deixou estragos em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC) Simepar Em resposta ao g1, a Prefeitura de São José dos Pinhais afirmou que "há previsão para a contratação, ainda neste ano, de estudos técnicos com o objetivo de elaborar esse planejamento, que deverá servir como diretriz permanente para a atual e as futuras gestões". A Prefeitura de Piraquara disse, em nota, que o município tem um Plano de Contingência da Defesa Civil Municipal com a identificação das áreas de risco da cidade. A nota afirma ainda que "o município encontra-se em fase de criação do Fundo Municipal para Calamidades Públicas, instrumento necessário para viabilizar o acesso a recursos do Fundo Estadual para Calamidades Públicas". Na avaliação da advogada socioambiental Carolina Efing, os planos de adaptação à mudança do clima e os planos de contingência são iniciativas complementares. "O plano de adaptação muda a cidade para sofrer menos, com redução estrutural do risco ao longo do tempo, com obras, políticas e prevenção integrada, enquanto o plano de contingência prepara a cidade para agir rápido, com protocolos de emergência para proteger vidas e restabelecer serviços", explica. Ela dá um exemplo prático da diferença entre as estratégias. "A Defesa Civil pode fazer um laudo declarando que determinada área é de risco e imprópria para moradia, mas só a Secretaria de Urbanismo pode desapropriar e remanejar essas pessoas", pontua. "Um plano de contingência vai dizer que, se chover, essas pessoas precisam se abrigar, mas um plano de ação e adaptação climática vai determinar uma obrigatoriedade de investimento gradual em habitação resiliente", afirma Carolina Efing, da RECC. Segundo Efing, a legislação não obriga as prefeituras a criarem os planos municipais de adaptação climática, mas estabelece o mínimo que uma cidade precisa cumprir em lei para ter acesso aos recursos federais destinados ao enfrentamento das mudanças do clima. "Apesar de não ter nenhum tipo de penalidade, o município também não vai receber acesso a esses recursos federais que a gente está precisando", diz. A especialista destaca a necessidade de garantia de recursos diante do consenso científico de que as mudanças climáticas devem tornar mais frequentes os eventos climáticos extremos, como tornados, deslizamentos, enchentes e ondas de calor. "Se for ver a realidade climática aqui do Paraná, sobretudo nesses últimos anos, é cada vez mais importante a gente ter acesso a esse tipo de recurso", afirma. A advogada aponta ainda que nenhuma outra cidade do Paraná tem um Plano de Adaptação à Mudança do Clima. A Secretaria do Estado de Desenvolvimento Sustentável (Sedest) afirmou ao g1 Paraná que não tem um levantamento com todos os municípios paranaenses para saber quais deles têm ou não planos desse tipo. Registros do tornado registrado no último sábado (10), em São José dos Pinhais Reprodução Ranking de adaptação climática O módulo de Adaptação Climática do Índice de Transparência e Governança Pública (ITPG) de 2025 submeteu 14 cidades da RMC à avaliação. O ITGP é realizado em mais de 300 cidades de 11 estados brasileiros: Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Piauí, Santa Catarina e São Paulo. Enquanto a RECC é responsável por avaliar os municípios da RMC, outras 11 organizações da sociedade civil avaliam as demais regiões do país. As notas vão de zero a 100, classificando as prefeituras de "péssimo" a "ótimo" em transparência e governança. Os resultados completos estão no site da organização. Segundo a Transparência Internacional, a ferramenta "avalia e incentiva práticas de transparência, participação social, dados abertos e combate à corrupção nos municípios brasileiros [...] para que qualquer pessoa possa acompanhar, cobrar e transformar a gestão pública local". Além de São José dos Pinhais e Piraquara, a RECC avaliou outras 12 cidades da RMC. Confira abaixo o ranking com os municípios avaliados pelo ITGP. Ranking de avalição em adaptação climática Destelhamentos, queda de árvores e muros: tornado em São José dos Pinhais causa estragos Leia também: Simepar: Vento de tornado que atingiu São José dos Pinhais alcançou 180 km/h e é classificado como F2 Nuvem funil X tornado: entenda diferenças entre os dois fenômenos registrados no Paraná Vídeo: cachorro é arrastado pela força do vento durante tornado em São José dos Pinhais Tornados cada vez mais frequentes O tornado que atingiu São José dos Pinhais é o quinto registrado no Paraná em um período de três meses. Os outros foram registrados em Rio Bonito do Iguaçu, Guarapuava, Turvo e Mercedes. "O fenômeno que aconteceu em São José dos Pinhais, em Rio Bonito do Iguaçu, e vários exemplos aqui no Brasil e no mundo, são testemunhos das mudanças climáticas reais", afirma o climatologista Francisco Mendonça, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em novembro, um tornado de nível F4 destruiu 90% da cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no centro-sul do Paraná, deixando seis mortos e pelo menos 750 feridos. De acordo com o Simepar, os ventos na cidade ultrapassaram 330 km/h. De acordo com Mendonça, a resiliência climática das cidades está na capacidade de resistir e se recompor diante de eventos extremos, como os tornados registrados no estado nos últimos meses. "Estamos muito atrasados, e isso é muito grave. Cada vez que passa um fenômeno extremo sobre essas localidades, os impactos são maiores", diz. Da década de 1970 até agora, o Paraná registrou 131 tornados, aponta a doutora em geografia Karin Hornes, pesquisadora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Ela afirma ainda que a frequência desses eventos tende a aumentar. “Nós vamos continuar registrando tornados no Paraná e é imprescindível estarmos junto ao poder público organizando nossa sociedade para que ela se torne cada vez mais resiliente”, diz. Leia também: 'Achei que ia morrer': Vídeo mostra jovem se agarrando a árvore ao ser surpreendida por tornado no caminho para casa, no PR Imagens aéreas da destruição após passagem de tornado em Rio Bonito do Iguaçu (PR), em novembro de 2025 Reuters/via Governo do Estado do Paraná Lei do Clima de Curitiba Em dezembro do ano passado, a Câmara Municipal de Curitiba aprovou a Política Municipal de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas — a Lei do Clima —, que define um marco legal para a execução de estratégias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas na capital. De acordo com o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas, apenas 15% dos municípios brasileiros têm planos de adaptação, enquanto metade das capitais têm instrumentos firmados em lei para enfrentar as mudanças climáticas. Em 2020, a capital paranaense criou o Plano Municipal de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas (PlanClima), por meio do decreto municipal n° 1670. O estabelecimento do plano não garantia força legal às estratégias previstas no documento. Com a Lei do Clima, o PlanClima passou a ser um instrumento obrigatório da política pública de Curitiba, com revisão a cada cinco anos. Confira abaixo a íntegra da resposta da Prefeitura Municipal de Piraquara: A Prefeitura de Piraquara informa que o município possui um Plano de Contingência da Defesa Civil Municipal, elaborado conforme as diretrizes da Coordenação Estadual de Proteção e Defesa Civil do Paraná. O plano contempla a identificação das áreas de risco do município, a legislação aplicável, as formas de atuação, as competências institucionais e os contatos das diversas secretarias municipais, bem como das demais corporações que devem ser acionadas em situações de emergência. No âmbito da estrutura organizacional do município, existe o Departamento de Defesa Civil Municipal, responsável pela coordenação e pelos comandos operacionais, utilizados como ferramenta gerencial para planejar, controlar e executar ações emergenciais em circunstâncias de desastres. O município encontra-se em fase de criação do Fundo Municipal para Calamidades Públicas, instrumento necessário para viabilizar o acesso a recursos do Fundo Estadual para Calamidades Públicas (FUNPAR). O FUNPAR é um mecanismo financeiro do Estado do Paraná destinado a apoiar ações de prevenção, resposta e recuperação em situações de desastres naturais ou de calamidade pública. No que se refere às ações de prevenção, a Prefeitura de Piraquara tem executado, ao longo dos últimos anos, obras de melhoria da infraestrutura urbana por toda a cidade, incluindo intervenções de drenagem e macrodrenagem, além da realização de limpezas periódicas em fundos de vale e canais de escoamento de águas pluviais, com o objetivo de reduzir riscos e evitar alagamentos em áreas de risco. Confira abaixo a íntegra da resposta da Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais: A Prefeitura de São José dos Pinhais reconhece a relevância do debate sobre resiliência climática, especialmente diante dos recentes eventos extremos registrados na cidade. Embora o município ainda não possua um Plano Municipal de Resiliência Climática oficialmente instituído, já há previsão para a contratação, ainda neste ano, de estudos técnicos com o objetivo de elaborar esse planejamento, que deverá servir como diretriz permanente para a atual e as futuras gestões. Paralelamente, São José dos Pinhais já desenvolve ações alinhadas ao tema. O município conta com um Plano Municipal de Arborização Urbana, já contratado e concluído, e atualmente trabalha na captação de recursos para sua implantação. A iniciativa visa ampliar e qualificar a cobertura vegetal, contribuindo para a mitigação dos impactos climáticos. Outro ponto relevante é a revisão do Plano Diretor, em andamento, que irá incorporar diretrizes voltadas ao uso e ocupação do solo, com foco na preservação de áreas de inundação, áreas úmidas e na criação de novas normativas para ampliação de áreas verdes no município. Enquanto o plano específico de Resiliência Climática não é formalizado, as ações do município são orientadas por instrumentos de planejamento urbano, ambiental e de defesa civil, bem como pela legislação estadual e federal vigente e por diretrizes de planos e programas de outras esferas de governo. A atuação ocorre de forma integrada entre as secretarias responsáveis, com foco na prevenção de riscos, na melhoria da infraestrutura urbana e no fortalecimento da resposta a eventos climáticos extremos, reafirmando o compromisso com a segurança da população e o desenvolvimento sustentável. *Com colaboração de Rodrigo Matana, estagiário do g1 Paraná, sob supervisão de Douglas Maia. VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias no g1 Paraná.

FONTE: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2026/01/19/cidades-da-regiao-metropolitana-de-curitiba-atingidas-por-tornado-nao-tem-plano-de-adaptacao-as-mudancas-climaticas.ghtml


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